Literatura brasileira
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Disposto a organizar no coração do Brasil um exército de índios, sublevando-os contra os brancos, o jornalista Vicentino Beirão arrasta com ele, na louca empresa, o camaiurá Ipavu (ou Paiap), tirado por ele do reformatório (ou presídio) de Crenaque
Callado, AntonioCasos de visitantes, sertanejos e indios, reunidos durante as longas expedições realizadas pelos irmãos Villas Boas em todo o sertão brasileiro, estão apresentadas neste Almanaque
VILLAS-BOAS, OrlandoColonização, culto, cultura. Três palavras que se aparentam pela raiz verbal comum. Colonização diz o processo pelo qual o conquistador ocupa e explora novas terras e domina os seus naturais. Culto remete à memória dos deuses e dos antepassados que vencedores e vencidos celebram. Cultura é não só a herança de valores mas também o projeto de um convívio mais humano. A cada conceito responde uma dimensão temporal: o presente, o passado e o futuro.; Em capítulos que vão de Anchieta à indústria cultural, Alfredo Bosi, o conceituado autor da clássica História concisa da literatura brasileira, persegue com sensibilidade as formas históricas que enlaçaram colonização, culto e cultura: Dialética da colonização é o resultado deste percurso sui generis na história do pensamento brasileiro
BOSI, AlfredoEste livro excepcional representa uma contribuição decisiva ao estudo de nosso indianismo oitocentista, sem desconsiderar os antecedentes do tema na literatura colonial; A crítica, em geral, não viu mais do que exotismo e evasão na imagem romântica do índio, talhada conforme o figurino cortês do cavaleiro medieval, muito embora se tratasse de forjar um mito pátrio, de inventar uma tradição para o país recém-independente. David Treece sustenta o contrário: longe de ser uma representação divorciada de seu contexto histórico mais imediato, o indianismo constituiu uma reflexão problemática e persistente sobre a formação simbólica e sociopolítica do Estado nacional; Mais do que a reposição tediosa de um mesmo modelo, a literatura do período produziu distintas figurações do índio, em consonância não só com o papel a ele conferido no processo da colonização, mas também em sintonia com o jogo político e social do próprio século XIX; Assim, grosso modo, entre 1835 e 1850, o índio surgia como vítima das conseqüências militares e sociais da Conquista, numa atitude de franca condenação do processo colonizador. Atitude alimentada, talvez, pelo antilusitanismo que animou as violentas revoltas provinciais da Regência, pleiteando a descentralização do poder, as reformas liberais e as promessas de mudança contra a contínua dominação étnica e de classe; Já entre 1850 e 1870, o índio passava a figurar como aliado, muitas vezes à custa do sacrifício de sua própria vida ou de toda sua comunidade, em benefício do conquistador e da criação de uma civilização nos trópicos. Segundo o crítico inglês, tal aliança parece reverberar muito da política de conciliação do Segundo Reinado, buscando acomodar novos e velhos interesses, liberais e conservadores, num momento de esforço concentrado para se alcançar a centralização do Império e a unidade nacional, depois da instabilidade e das tendências separatistas das décadas anteriores; Por fim, de 1870 a 1888, o índio como rebelde, representado em registro mais verista ou simplesmente rebaixado, vinha pôr em xeque o modelo idealizado até então (e já bastante desgastado), prenunciando, desse modo, a chegada de novos ideais estéticos, políticos e sociais (realismo, republicanismo, abolicionismo); Se a articulação entre o indianismo e a dinâmica histórico-política do século XIX já foi sugerida por alguma interpretação mais recente, jamais se chegou a uma abordagem desta envergadura, mobilizando tamanho corpus de análise, examinado de forma sistemática e aprofundada, com uma ancoragem tão segura nas disciplinas vizinhas (história, sociologia, antropologia). Para além das representações canônicas do indianismo romântico (Gonçalves Dias, Alencar, Magalhães.), Treece traz à cena todo um elenco de autores e obras menos celebrados (ou mesmo ignorados) pela historiografia oficial, que redimensiona por completo a visão dessa vertente literária e o alcance do debate político-ideológico a ela associado
TREECE, DavidNuma atmosfera lendária e exótica, desenrola-se a história dos amores de Martim, o primeiro colonizador português do Ceará, e Iracema, bela jovem índia. A moça era filha de Araquém, pajé da tribo Tabajara. Martim saira à caça com seu amigo Poti e perdera-se do companheiro indo ter aos campos dos inimigos Tabajaras. Encontra Iracema, que o acolhe na cabana de Araquém, enquanto volta Caubi, seu irmão, que conduziria o guerreiro branco, são e salvo, às terras potiguaras. Iracema, porém, apaixona-se por Martim e, depois de algum tempo, casa-se com ele e deixa sua tribo num ambiente de revolta. Desencadeia-se uma guerra de vingança e os tabajaras são derrotados. Iracema confunde as aventuras do amor com as amargas tristezas da morte de seus irmãos. Ao remorso e saudade, outra dor lhe acrescenta, a desilusão ao amor de Martim, que triste por estar longe de sua pátria, ausenta-se em longas jornadas. Num de seus regressos, encontra Iracema a beira da morte, exausta pelo esforço que fizera para alimentar o filho recém-nascido, a quem dera o nome de Moacir (filho da dor). Martim enterra o corpo da esposa e parte, levando a criança e a saudade da fiel companheira
ALENCAR, José deRomance em que o autor tenta resgatar a cultura indígena do ponto de vista dos homens que habitam a floresta. Ilustrações de Poty dão um ritmo todo especial, além de criar um clima para a saga que o antropólogo recria. Darcy Ribeiro realizou esta obra em plena maturidade criativa. Começou a escrevê-la no exílio, através de lembranças de sua trajetória no meio dos indígenas, em companhia, inicialmente do general Cândido Rondon, depois como etnólogo, convivendo por muito tempo com várias etnias. Seu romance é narrado em quatro movimentos: Antífona, Homilia, Cânon e Corpus. Como uma espécie de celebração, os fatos vão nos permitindo descobrir a visão de mundo dos silvícolas, a importância dos mitos, o papel do homem e da mulher, a relação com a natureza, o significado das indumentárias, a força das cores e da influência dos astros no cotidiano da aldeia. Lições de convivência entre o homem e o meio ambiente
RIBEIRO, Darcy (1922-1997)Não há muito que se fala no Brasil em abolicionismo e partido abolicionista. A idéia de suprimir a escravidão, libertando os escravos existentes, sucedeu à idéia de suprimir a escravidão, entregando-lhe o milhão e meio de homens de que ela se achava de posse em 1871 e deixando-a acabar com eles. Foi na legislatura de 1879-80 que, pela primeira vez, se; viu dentro e fora do Parlamento um grupo de homens fazer da emancipação dos escravos, não da limitação do cativeiro às gerações atuais, a sua bandeira política, a condição preliminar da sua adesão a qualquer dos partidos
NABUCO, JoaquimNa primeira metade do século XVII, Portugal ainda dependia politicamente da Espanha, fato que, se por um lado exasperava os sentimentos patrióticos de um frei Antão, como mostrou Gonçalves Dias, por outro lado a ele se acomodavam os conservadoristas e os portugueses de pouco brio. D. Antônio de Mariz, fidalgo dos mais insignes da nobreza de Portugal, leva adiante no Brasil uma colonização dentro mais rigoroso espírito de obediência à sua pátria. Representa, com sua casa-forte, elevada na Serra dos Órgãos, um baluarte na Colônia, a desafiar o poderio espanhol. Sua casa-forte, às margens do Pequequer, afluente do Paraíba, é abrigo de ilustres portugueses, afinados no mesmo espírito patriótico e colonizador, mas acolhe inicialmente, com ingênua cordialidade, bandos de mercenários, homens sedentos de ouro e prata, como o aventureiro Loredano, ex-padre que assassinara um homem desarmado, a troco do mapa das famosas minas de prata. Dentro da respeitável casa de D. Antônio de Mariz, Loredano vai pacientemente urdindo seu plano de destruição de toda a família e dos agregados. Em seus planos, contudo, está o rapto da bela Cecília, filha de D. Antônio, mas que é constantemente vigiada por um índio forte e corajoso, Peri, que em recompensa por tê-la salvo certa vez de uma avalancha de pedras, recebeu a mais alta gratidão de D. Antônio e mesmo o afeto espontâneo da moça, que o trata como a um irmão. A narrativa inicia seus momentos épicos logo após o incidente em que Diogo, filho de D. Antônio, inadvertidamente, mata uma indiazinha aimoré, durante uma caçada. Indignados, os aimorés procuram vingança: surpreendidos por Peri, enquanto espreitavam o banho de Ceci, para logo após assassiná-la, dois aimorés caem transpassados por certeiras flechas; o fato é relatado à tribo aimoré por uma índia que conseguira ver o ocorrido. A luta que se irá travar não diminui a ambição de Loredano, que continua a tramar a destruição de todos os que não o acompanhem. Pela bravura demonstrada do homem português, têm importância ainda dois personagens: Álvaro, jovem enamorado de Ceci e não retribuído nesse amor, senão numa fraterna simpatia; Aires Gomes, espécie de comandante de armas, leal defensor da casa de D. Antônio. Durante todos os momentos da luta, Peri, vigilante, não descura dos passos de Loredano, frustrando todas suas tentativas de traição ou de rapto de Ceci. Muito mais numerosos, os aimorés vão ganhando a luta passo a passo. Num momento, dos mais heróicos por sinal, Peri, conhecendo que estavam quase perdidos, tenta uma solução tipicamente indígena: tomando veneno, pois sabe que os aimorés são antropófagos, desce a montanha e vai lutar "in loco" contra os aimorés: sabe que, morrendo, seria sua carne devorada pelos antropófagos e aí estaria a salvação da casa de D. Antônio: eles morreriam, pois seu organismo já estaria de todo envenenado. Depois de encarniçada luta, onde morreram muitos inimigos, Peri é subjugado e, já sem forças, espera, armado, o sacrifício que lhe irão impingir. Álvaro (a esta altura enamorado de Isabel, irmã adotiva de Cecília) consegue heroicamente salvar Peri. Peri volta e diz a Ceci que havia tomado veneno. Ante o desespero da moça com essa revelação, Peri volta à floresta em busca de um antídoto, espécie de erva que neutraliza o poder letal do veneno. De volta, traz o cadáver de Álvaro morto em combate com os aimorés. Dá-se então o momento trágico da narrativa: Isabel, inconformada com a desgraça ocorrida ao amado, suicida-se sobre seu corpo. Loredano continua agindo. Crendo-se completamente seguro, trama agora a morte de D. Antônio e parte para a ação. Quando menos supõe, é preso e condenado a morrer na fogueira, como traidor. O cerco dos selvagens é cada vez maior. Peri, a pedido do pai de Cecília, se faz cristão, única maneira possível para que D. Antônio concordasse, na fuga dos dois, os únicos que se poderiam salvar. Descendo por uma corda através do abismo, carregando Cecília entorpecida pelo vinho que o pai lhe dera para que dormisse, Peri, consegue afinal chegar ao rio Paquequer. Numa frágil canoa, vai descendo rio abaixo, até que ouve o grande estampido provocado por D. Antônio, que, vendo entrarem os aimorés em sua fortaleza, ateia fogo aos barris de pólvora, destruindo índios e portugueses. Testemunhas únicas do ocorrido, Peri e Ceci caminham agora por uma natureza revolta em águas, enfrentando a fúria dos elementos da tempestade. Cecília acorda e Peri lhe relata o sucedido. Transtornada, a moça se vê sozinha no mundo. Prefere não mais voltar ao Rio de Janeiro, para onde iria. Prefere ficar com Peri, morando nas selvas. A tempestade faz as águas subirem ainda mais. Por segurança, Peri sobe ao alto de uma palmeira, protegendo fielmente a moça. Como as águas fossem subindo perigosamente, Peri, com força descomunal, arranca a palmeira do solo, improvisando uma canoa. O romance termina com a palmeira perdendo-se no horizonte, não sem antes Alencar ter sugerido, nas últimas linhas do romance, uma bela união amorosa, semente de onde brotaria mais tarde a raça brasileira
ALENCAR, José deO índio Peri era companheiro e protetor de Ceci, cujo irmão matara, casualmente, uma índia da tribo Aimoré. Esse fato exaspera a família da índia que pretende vingar-se matando Ceci. Peri, vigilante, mata-os e, graças a ele, todo tipo de vingança contra a família de Ceci é desfeita. Peri, imaginando que poderia matar todos os Aimorés sozinho, toma veneno e se lança contra mais de duzentos índios. Quando já fizera grande mortandade, entrega-se como prisioneiro, porque conhecia o costume daqueles índios antropófagos de devorar o inimigo. estando ele envenenado, todos morreriam ao comer de seu corpo. No momento em que seria sacrificado, um grupo de homens salva peri. Diante do pedido de Ceci, o índio entra na floresta em busca de uma erva que anula o efeito do veneno. Novo ataque é marcado contra a casa de Ceci e o índio recebe o encargo de salvá-la. Já longe, ouve um terrível estampido e vê o fogo que destruía a casa atacada e os próprios Aimorés. Cresce a afeição da moça por Peri, que é chamado por ela de irmão. Desaba uma enorme tempestade e as águas sobem depressa. Peri leva Ceci ao alto de uma palmeira, mas as águas continuam subindo. Peri desce até as raízes da palmeira e as desprende do solo, após gigantesco esforço. A palmeira, ninho onde se abrigam Peri e Ceci, vai vagando nas águas e se perde no horizonte
ALENCAR, José deDetecta as contradiçOes ideológicas de alguns autores indianistas a partir do Neoclassicismo (século XVIII) até o Modernismo (século XX)
GOMES NETO, DarcyRomance francês, baseado nos índios brasileiros Maxacali
DENIS, FerdinandCruzadas de amor, momentos de glória". Publicado em 1967, é o mais famoso volume de Antônio Callado. Guarda o clima de sua época e reconstrói a história de Nando, padre de Pernambuco que nutre o sonho de reconstituir as missões jesuíticas, mas não se anima a sair de seu mosteiro. Conhece Francisca e o noivo Levindo, dois jovens revolucionários, que participam das Ligas Camponesas. Nando apaixona-se platonicamente por Francisca, mas é introduzido na vida sexual pela inglesa Winifred. O padre, agora sem os medos que o abalavam, parte rumo ao Xingu. De passagem pelo Rio, conhece pessoas ligadas ao Serviço de Proteção aos Índios. Ramiro é o chefe e apaixonado por Vanda, a sobrinha, que é amante de Falua. Há ainda o bem-intencionado Fontoura, que tenta preservar a cultura indígena destruída pelos avanços da civilização. O grupo parte para o Xingu, em época de conturbação política causada pelo atentado a Lacerda e os últimos momentos do governo de Getúlio Vargas, chefe político esperado para a inauguração do Parque do Xingu. Enquanto os índios preparavam a grande festa dos mortos, o quarup, recebem a notícia do suicídio de Vargas. Passam-se os anos, e os membros do grupo se reencontram no Xingu, menos Sônia, que havia fugido com um belo índio. Junta-se ao grupo Francisca, cujo noivo fora assassinado pela polícia. Nando torna-se amante de Francisca, consumando-se a relação amorosa anteriormente platônica. Partem todos em expedição ao centro geográfico do Brasil, atingindo-o somente depois de muitas privações. Nando renuncia ao sacerdócio e passa a trabalhar com a alfabetização de camponeses, cujo movimento ganha força no governo de Miguel Arraes. Os principais momentos da política estão presentes, desde a queda de Goulart até a instauração da ditadura militar e a repressão aos militantes de esquerda. Nando vai preso e, ao ser colocado em liberdade, sabe da partida de Francisca para a Europa. Instala-se em uma casa de praia, empreendendo uma nova cruzada, a cruzada do amor, difundindo aquilo que aprendera com a antiga amante. Em um quarup, em homenagem ao aniversário de morte de Levindo, é apanhado pela polícia e espancado quase até a morte. Recebe socorro de alguns companheiros, dentre eles Manuel Tropeiro, com quem decide partir para o sertão e empreender uma nova jornada de luta. Nando está pronto para encontrar o seu momento de glória
CALLADO, Antonio (1917-1997)Passa-se antes do descobrimento. O mais aborígene dos romances de Alencar. Desenvolve a lenda da fusão das tribos Araguaia e Tocantins, através do guerreiro Jaguarê, o senhor da lança
ALENCAR, José deRelatos sobre a grande aventura de uma expedição tragada pelo violento rio das Mortes
VILLAS-BOAS, Claudio