Este livro reúne cinco ensaios etnológicos escritos por Fernandes entre 1946 e 1964, incluindo estudos sobre a reação tupi à conquista, a educação entre os Tupinambá, a trajetória de Tiago Marques Abiporeu, as tendências teóricas da pesquisa etnológica e o valor etnográfico das fontes coloniais. Inclui o famoso quadro sinóptico das observações registradas pelos “cronistas”
Sin títuloDurante mais de quatro séculos foi vendida a imagem do índio como um homem geneticamente preguiçoso, um homem nada afeito ao trabalho sistemático. Esta preguiça, entretanto, seria mera conseqüência da riqueza da terra. O índio brasileiro vivia numa espécie de Leste do Éden, um espaço onde tudo estava à mão e nenhuma necessidade se apresentava. Daí seu nomadismo, seu desapego à terra, seu desprezo ao trabalho. Segundo a tese em voga, também daí vinham seu caráter de povo sem lei, nem fé, nem rei e a formação de uma sociedade onde tudo era permitido, inclusive o canibalismo, a promiscuidade e a libertinagem.; Este olhar quinhentista formalizou o motivo necessário para se trazer da África os milhões de negros escravizados, afinal, uma “cultura superior”, como a européia, não podia conviver com tamanha ignomínia. E o sistema colonial precisava de uma mão de obra mais, digamos, responsável para fazer valer seus altos investimentos
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