Esse é o grande mérito do belíssimo trabalho que a antropóloga Betty Mindlin vem desenvolvendo entre os Suruí de Rondônia, Os Tupari deste livro e quiça junto a muitos outros grupos antes que se perca por completo a memória multissecular de histórias como estas: apanhar o mito vivo, na sua grandeza simples sem a solenidade do monumento mais impregnado de um pathos que só quando narrado possui."
Sans titrePara Mindlin, a vida dos Suruí Paiter mudou consideravelmente desde sua chegada à aldeia, há quase 30 anos, levada por Apoena Meirelles. "Hoje, são cidadãos brasileiros, inseridos no mercado, nas escolas, na cidade, votam, são candidatos, usam computadores e Internet, organizam-se em associações, têm muitos interesses, enfim, além dos que prevaleciam em 1980". A antropóloga acredita que apesar das mudanças, os mitos, contados por líderes mais velhos e pajés, ainda estão bem vivos para os Suruí, mas seria preciso fazer uma pesquisa para saber quem tem conhecimento da tradição
Sans titreDesde o contato oficial, em 1969, a aproximação com os não índios trouxe profundas mudanças sociais entre os Paiter. Estas, entretanto, não anularam sua índole guerrreira, que motivou a luta desse povo pelo reconhecimento e a integridade de seu território. Este, ao longo da história, foi terrivelmente ameaçado pela violência do Polonoroeste, a corrupção e omissão de órgãos governamentais, a invasão de moradores indevidos e a incidência de madeireiras e mineradoras. Lutando como podem contra essas adversidades, os Paiter procuram manter a vitalidade de suas tradições culturais, em que a sociedade é compreendida a partir de uma divisão em metades, de modo que os segmentos sociais, as atividades produtivas e a vida ritual constituem expressões do dualismo entre a aldeia e a mata, a roça e a caça, o trabalho e a festa - sendo as festas de troca de oferendas e os mutirões a elas associados os momentos culminantes do intercâmbio e da alternância entre essas metades
Sans titreAs histórias de 'Moqueca de maridos' são mágicas. Os mitos são contados por narradores tradicionais nas várias línguas indígenas, e traduzidos por outros tantos narradores índios, retratando um universo rico e desconhecido de povos milenares. O repertório de histórias provém de seis povos indígenas de Rondônia, que falam línguas diversas e têm tradições distintas
Sans titreHistórias com sabor irreverente de seis diferentes povos indígenas do interior do Brasil: os Cinta-Larga (Mato Grosso do Norte), os Jabuti (Rondônia), os Kaiapó (Mato Grosso do Norte e Pará), os Suruí (Rondônia) e os Tremembé de Almofala (Ceará). As narrativas tratam, em geral, de mitos de criação do mundo transmitidos oralmente, de geração para geração
Sans titreBem longe do barulho e da agitação das cidades, envolvidos pela noite escura e pelos mistérios da floresta, os índios se reúnem em torno da fogueira para contar suas histórias - narrativas fantásticas que revelam seu cotidiano, suas crenças e suas interpretações para os enigmas da vida e da morte. Impossível ouvi-as e não reagir a elas com admiração e espanto, tão fascinante é o universo mítico dos povos indígenas brasileiros.
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